Um texto antigo que já despertava algumas coisas...
O papel humanitário da fotografia. - por Tiago Marchesano
Está acontecendo no Sesc Pompéia a exposição “World Press Photo”. Uma retrospectiva mundial de foto-jornalismo que premia as imagens fotográficas feitas no ano de 2004.
Respire fundo. Deixe a alma tranqüila. E encare!
Não é fácil e nem de rápida digestão. Mas a vida é?
A vida é a protagonista nestas imagens. Acontecimentos mundiais retratam ela de diferentes formas. E estes são retratados por fotógrafos através de suas lentes perplexas por seu espetáculo. A guerra civil do Sudão mostra a luta para tirar e preservar vidas de minorias. A invasão norte-americana no Iraque a troca por riquezas e crenças imperialistas. As Olimpíadas têm a intenção de celebra-la. As Para-Olimpíadas tentam superar suas dificuldades. Um incêndio numa favela brasileira mostra a vida amontoada e sem perspectiva. O massacre na escola de Beslán assassina o início dela. Tudo isso está pendurado nas paredes do Sesc. Paredes que quase desabam, por não suportar todo o peso do sangue, das balas, dos sorrisos, da esperança.
O feio se torna atrativo por causa da plasticidade dessas imagens. Suas cores, suas linhas, suas luzes. Faz com que você se interesse pelo que está acontecendo. Te causa impacto. Te causa dor. Muita dor. Compaixão talvez?
Não deixe-se afetar por uma simples mancha de sangue, você ainda verá mais inúmeras nas próximas fotos.
Tente pensar que aquilo não é com você. São pessoas desconhecidas que vivem a muitos quilômetros de distância. Você nunca as viu e nunca as verá na vida.
Impossível, não é? Por mais tentativas que faça, não consigo abstrair-me e pensar que são apenas fotos ou imagens. Porque são muito mais que simples imagens. São vidas, guerras, glórias, perdas. A pessoa que tem um pingo de conhecimento do que acontece no mundo sabe que aquilo tudo é verdade. E que é apenas uma pequena parte de um todo muito maior. A pessoa que não tem esse conhecimento, vai se chocar mais ainda. Dirá: “como algo assim pode existir”?
A fotografia tem a finalidade de retratar uma época, um acontecimento. Tem a função de mostrar ao mundo o que é perder um filho porque pessoas que moram ao seu lado não têm a mesma crença que você. Mas a foto pode mostrar tudo isso? Talvez não. Mas o sofrimento está lá. Escancarado na sua frente.
Essa é uma oportunidade de ver com os próprios olhos o que de monstruoso ou de belo que acontece no mesmo planeta que você vive. Talvez, por inúmeras razões, você nunca terá a oportunidade de presenciar tais cenas ali, ao vivo e a cores. Mas essas fotos te ajudam a entender melhor. A estar um pouco mais próximo. Um pouco mais ciente da dor dos outros. Elas tem o poder de te tocar e fazer com que você pense que o mundo realmente está se matando. Está em plena fase de autodestruição. Mas ainda mostra esperança em certos olhares, em certos sorrisos. Nem tudo está perdido.
A fotografia é humanitária. Tem seu papel de despertador da consciência do homem. O homem tem o dom de tocar a alma do outro. Seja com um grito de dor. Com uma sinfonia. Ou com uma foto de um homem com os lábios e pálpebras costuradas em sinal de protesto. Sem aquela imagem, eu nunca saberia à quais conseqüências um homem iraniano levou sua revolta contra o governo holandês. Eu não moro na Holanda, nem no Irã.
São Paulo, 18 de julho de 2005
Está acontecendo no Sesc Pompéia a exposição “World Press Photo”. Uma retrospectiva mundial de foto-jornalismo que premia as imagens fotográficas feitas no ano de 2004.
Respire fundo. Deixe a alma tranqüila. E encare!
Não é fácil e nem de rápida digestão. Mas a vida é?
A vida é a protagonista nestas imagens. Acontecimentos mundiais retratam ela de diferentes formas. E estes são retratados por fotógrafos através de suas lentes perplexas por seu espetáculo. A guerra civil do Sudão mostra a luta para tirar e preservar vidas de minorias. A invasão norte-americana no Iraque a troca por riquezas e crenças imperialistas. As Olimpíadas têm a intenção de celebra-la. As Para-Olimpíadas tentam superar suas dificuldades. Um incêndio numa favela brasileira mostra a vida amontoada e sem perspectiva. O massacre na escola de Beslán assassina o início dela. Tudo isso está pendurado nas paredes do Sesc. Paredes que quase desabam, por não suportar todo o peso do sangue, das balas, dos sorrisos, da esperança.
O feio se torna atrativo por causa da plasticidade dessas imagens. Suas cores, suas linhas, suas luzes. Faz com que você se interesse pelo que está acontecendo. Te causa impacto. Te causa dor. Muita dor. Compaixão talvez?
Não deixe-se afetar por uma simples mancha de sangue, você ainda verá mais inúmeras nas próximas fotos.
Tente pensar que aquilo não é com você. São pessoas desconhecidas que vivem a muitos quilômetros de distância. Você nunca as viu e nunca as verá na vida.
Impossível, não é? Por mais tentativas que faça, não consigo abstrair-me e pensar que são apenas fotos ou imagens. Porque são muito mais que simples imagens. São vidas, guerras, glórias, perdas. A pessoa que tem um pingo de conhecimento do que acontece no mundo sabe que aquilo tudo é verdade. E que é apenas uma pequena parte de um todo muito maior. A pessoa que não tem esse conhecimento, vai se chocar mais ainda. Dirá: “como algo assim pode existir”?
A fotografia tem a finalidade de retratar uma época, um acontecimento. Tem a função de mostrar ao mundo o que é perder um filho porque pessoas que moram ao seu lado não têm a mesma crença que você. Mas a foto pode mostrar tudo isso? Talvez não. Mas o sofrimento está lá. Escancarado na sua frente.
Essa é uma oportunidade de ver com os próprios olhos o que de monstruoso ou de belo que acontece no mesmo planeta que você vive. Talvez, por inúmeras razões, você nunca terá a oportunidade de presenciar tais cenas ali, ao vivo e a cores. Mas essas fotos te ajudam a entender melhor. A estar um pouco mais próximo. Um pouco mais ciente da dor dos outros. Elas tem o poder de te tocar e fazer com que você pense que o mundo realmente está se matando. Está em plena fase de autodestruição. Mas ainda mostra esperança em certos olhares, em certos sorrisos. Nem tudo está perdido.
A fotografia é humanitária. Tem seu papel de despertador da consciência do homem. O homem tem o dom de tocar a alma do outro. Seja com um grito de dor. Com uma sinfonia. Ou com uma foto de um homem com os lábios e pálpebras costuradas em sinal de protesto. Sem aquela imagem, eu nunca saberia à quais conseqüências um homem iraniano levou sua revolta contra o governo holandês. Eu não moro na Holanda, nem no Irã.
São Paulo, 18 de julho de 2005

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